27 de abril de 2012

Crítica: A Perseguição

Por: Rodrigo Ortiz

Humanos, lobos e as coisas complicadas da vida

Baseado no conto Ghost Walker, por Ian MacKenzie (que também co-escreveu o roteiro, juntamente do diretor Joe Carnahan), “A Perseguição” (“The Grey”, 2011) é um filme tenso que fala sobre assuntos complexos, dos quais é difícil tratar sem ser necessariamente duro, cru e até cruel.

Ottway (Liam Neeson) trabalha para uma empresa petroleira em um lugar inóspito do Alasca, caçando lobos para garantir a segurança de seus companheiros. Sua vida é triste, com pouco significado, passando seus dias a lamentar um amor perdido. Tudo muda quando, durante um transporte dos trabalhadores, o avião que levava o grupo cai no meio de um campo nevado isolado da civilização. Ottway sobrevive e passa a liderar os outros 6 sobreviventes conforme tentam retornar para a segurança. Mas mais do que o frio, a falta de suprimentos, os ferimentos ou o isolamento, o grupo tem que lutar pela própria sobrevivência ao descobrir que estão dentro do território de um grupo de lobos cinzentos, que pretende caça-los um a um.

Em clima de sobrevivência, o filme desde cedo captura o público pela tensão. Começando pela violenta cena do acidente, passamos a um momento verdadeiramente comovente quando, mesmo após já terem encontrado diversos mortos, os sobreviventes precisam encarar o sofrimento da partida literalmente nos olhos pela primeira vez. Mais do que o sofrimento do grupo ao ver um amigo morrer, começa o terror psicológico que segue todos (e o público) pelo filme: estão longe da civilzação, longe da segurança. E podem morrer a qualquer minuto, indo parar, numa discussão que o filme levanta mais de uma vez, não se sabe onde. Nem todos compartilham a opinião de Ottway que o que devemos nos preocupar é esta vida, e não a chance de morrermos ou o que pode haver “do outro lado”.

O foco na sobrevivência traz consigo discussões sobre a própria base do que nos torna humanos. Frente à adversidade, cada um dos personagens mostra seu melhor e seu pior, e vemos que motivos para lutar ou para desistir não faltam. Ottway diversas vezes repete parte de um poema que dita o tema por trás de tudo: “Viver e morrer neste dia”. Conforme enfrentam campos gelados, neve e os lobos, muitas vezes as piores ameaças são intangíveis, como o medo ou a desconfiança.

Interessantemente, para um filme que usa tanto o literal da sobrevivência para falar do metafórico, a maneira que os lobos foram tratados parece incompleta. Retratados como uma ameaça constante, quase onisciente da posição e situação dos protagonistas, eles geram o terror em muitas cenas, mesmo que com uivos ou ruídos na escuridão. A luta contra o grupo funciona como um paralelo para os sofrimentos dos personagens e os obstáculos que devem enfrentar, seja no momento ou nos seus passados mal-resolvidos. Ainda assim, é possível considerar uma falha de abordagem no sentido que a questão de sobrevivência parece apenas humana. Em vez de retratar o grupo de lobos como um paralelo do de humanos, são apresentados como bestas selvagens. Nos poucos momentos em que a identificação positiva acontece, enriquecendo a simbologia do longa, ocorre por pouco tempo e de maneiras que os menos atentos podem não notar.

O drama depressivo de Ottway gera interesse no personagem, que passa a brilhar como líder do grupo na hora da sobrevivência, mostrando força e conhecimento. O fato de Neeson ser de longe um dos mais habilidosos do elenco ajuda muito, mas é extremamente interessante ver a batalha física e mental do personagem contra os lobos, a adversidade e até a má sorte.

Apesar de não termos nenhuma atuação inferior (ainda, pelo contrário – uma das cenas mais comoventes estrela um secundário, James Badge Dale), há um problema na abordagem dos secundários. O grupo variado oferece uma coleção de pequenos dramas e históricos detalhados, seja por relatos dos personagens ou por objetos e dicas que surgem no decorrer da história, mas ainda assim parte dos companheiros de Ottway acabam esquecíveis, até gerando pouca empatia em certos casos. Algumas decisões em prol da evolução do enredo não ajudam, mas felizmente os momentos “burros” são minoria.

Flannery (Joe Anderson) se destaca pelo seu bom humor e ótimo alívio cômico, e o briguento Diaz (Frank Grillo) se torna inesquecível pelos conflitos que gera. Do outro lado do exemplo temos Burke (Nonso Anozie), que acaba sendo menos interessante por sua abordagem e ações como sobrevivente, apesar de ter uma bela história. Talvez pelo uso dos sobrenomes com frequência, não conseguimos nos aproximar tanto de todos por bons segmentos do longa, mesmo na hora da morte. Inclusive, uma das cenas de maior empatia é quando descobrimos o primeiro nome de alguns dos personagens. O calor e amizade que se seguem passam pela tela, do mesmo modo que o frio faz por todo filme.

Repleto de montagens psicológicas e cenas de sonho, “Perseguição” aproveita do passado para gerar paralelos com o presente em belas montagens que complementam tanto o mental dos personagens, em especial de Ottway, quando os ambientes inóspitos e gelados – boa parte do filme, a maior parte do que vemos são tons de branco e preto ocupando a maior parte da tela: a neve ou a noite. O clima opressor chega até o público com pouco esforço na maior parte das vezes.

Se você não gosta de ver pessoas sofrerem, passe longe! Se você não gosta de violência, seja contra humanos ou animais, esse filme não é para você – os “lobos maus” mais de uma vez são mostrados estraçalhando carne humana, assim como se digladiando com os sobreviventes. Existem boatos de que a produção teria utilizado lobos caçados reais para certas cenas, o que gerou problemas com manifestantes de ONGs por proteção dos animais, que se movimentaram para boicotar o lançamento nos EUA. Independente da verdade desses ocorridos, a temática não é para qualquer um.

Interessante, se valendo de algumas abordagens originais, vale o ingresso. Mas se apresse, como vários outros filmes adiados (o lançamento é originalmente de 2011), a distribuição de salas e horários é irregular.

Ah, e fique atento(a) para depois dos créditos! Há uma cena extra de poucos segundos que adiciona uma dimensão a mais no final do longa.